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Comunicação e Loucura*

O presente artigo faz uma reflexão sobre a loucura e a comunicação contemporânea. Expõe de forma breve o histórico da loucura e em seguida parte para uma reflexão sobre os atuais sensores sociais. Com conclusão que se encaminha a reflexão questiona as possibilidades de realidade caso o conceito de loucura não tivesse evoluído

*Artigo apresentado como etapa integrante de uma das disciplinas na formação em Psicanálise.

Hoje, vivemos imersos na tecnologia e os elementos ou instrumentos de comunicação nos conectam em extrema velocidade. Para a criação de um senso comum sobre uma ideia levam-se segundos, fenômeno que a comunicação pesquisa e chama de ‘fluxos comunicacionais’ (Braga, 2012), que permitem a dispersão da informação de forma rápida e quase imparável. Diante deste fenômeno, nos perguntamos constantemente onde está a razão? Somos bombardeados por ideias absurdas muitas vezes e com o fenômeno cada vez mais presente das fake News fica difícil muitas vezes não questionar nossa própria sanidade. Afinal, o que é correto e o que é loucura em pleno século XXI?

A sociedade se midiatizou, e está se midiatizando, e nesse exato momento emitem suas opiniões como especialistas, tanto pessoas sãs, quanto neuróticos ou esquizofrênicos. Uma simples busca no google nos apontará uma série de indivíduos apocalípticos ou com teorias mirabolantes sobre conspirações governamentais, espirituais e até mesmo alienígenas. Contudo, esse não é o fenômeno maior em nossa sociedade contemporânea, mas sim a polarização social, em que dois lados se apontam como um sendo mais louco do que o outro e por diversas vezes, através da violência, perdendo a razão.

Através de uma pesquisa bibliográfica, este artigo pretende a reflexão sobre o que é a loucura, como ela foi retratada ao longo do tempo e um contraponto com teorias de socialização contemporâneas. Nosso objetivo principal é iniciar um processo de reflexão que poderá e deverá ser desdobrado em outros momentos, permitindo um panorama mais geral sobre o que é loucura em uma sociedade midiatizada. Para tanto, discorreremos sobre o panorama histórico do tratamento a loucura e por fim faremos uma reflexão a cerca das características de elementos atuais. Com objetivo secundário de uma análise mais social e menos patogênica do conceito, abordaremos mais diretamente o tratamento social para o diferente, permitindo que a loucura na visão deste artigo permaneça como um conceito amplo, sendo abordado o tratamento ao diferente, como tratamento à loucura.

Ao longo dos séculos pensar de forma diferente era sinônimo de loucura. Seja través da alegoria da caverna de Platão ou até mesmo de marcos históricos que mudaram completamente a visão da humanidade, pensar além, ou ver o mundo real também era loucura. A mudança do terracentrismo para o heliocentrismo, a terra redonda, as bruxas da inquisição, são inúmeras provas de que ao longo dos séculos a humanidade tratou o diferente como sinal de loucura, para Frayze-Pereira (1984) a loucura sempre foi sinônimo de exclusão de pensamentos  divergentes, respeitados os casos em que existem elementos patogênicos e condições psiquiátricas extremas, de uma forma geral, os loucos de ontem, eram muitas vezes apenas rebeldes ou visionários. Assim:

 “excluída pelo sujeito que duvida, a loucura é a condição de impossibilidade do pensamento. Ou seja, a partir do racionalismo moderno, sabedoria e loucura se separam. Os perigos que a loucura poderia oferecer para influenciar a relação entre o sujeito e a verdade são afastados.” (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.61)

 Essa separação racional entre o que é aceitável e o que é loucura, levou ao longo dos séculos a existência de muitas formas de segregação social. Para que se pudesse ordenar a sociedade e o pensamento social, era necessário que houvessem separações, para manter claros os papeis a serem cumpridos. Ao longo do tempo, ser louco foi, e é muitas vezes, não pertencer ao senso comum. Logo, se o que impera como ideia entre a maioria é a razão, e o que a minoria pensa ou faz é ‘desrazão’ (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.62).

Com o objetivo de contornar esse problema, e realmente isolar os pensamentos divergentes, as sociedades antigas desenvolveram práticas que iam do isolamento em ilhas, embarcações, casas de tratamento e outras instituições especializadas em tratar os males do mundo. Não apenas aspectos em que o indivíduo pudesse ser agressivo ou um perigo a si mesmo e aos seus convives, mas também quando insurgia em ideias contrárias ao estabelecido socialmente. Dessa forma, até mesmo ser pobre poderia ser considerado caso para tratamento. “A prática de internamento figura como uma medida final de condenação dos pobres. Essa percepção da pobreza, que se originou sobretudo no mundo protestante, acabou sendo acolhida pelos católicos.” (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.64)

Essa solução para o problema das ideias divergentes, acabou não tendo a preocupação transformacional ou de cura para aqueles que sofriam internação, mas muitas vezes era realizada com intenções políticas ou com objetivo de reduzir vergonhas familiares. “Melhor dizendo, a partir do século XVII, a loucura vai estar indissoluvelmente ligada a uma má vontade, a um erro ético. A grosso modo, isto significa que um indivíduo enlouquece por ter desejado ser louco” (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.68). É o ponto em que a ameaça da loucura ou da internação serve como elemento de negociação para eliminar ideias contrárias ou até mesmo comportamentos tidos como imorais ou libidinosos.

Toda via, a sociedade encontrou maneiras de realizar seus controles de como deveriam portar-se cada um dos indivíduos, isso porquê:

 “diante do inumano a sociedade clássica sente vergonha. A honra das famílias e da religião deve ser preservada. Os perigos do mau exemplo devem ser suprimidos. Há o temor de que, se tornadas públicas, as formas do desatino contaminem a sociedade.(…) E será apenas quando a honra já não puder ser afetada, quando operigo do escândalo tiver sido afastado, que se cogitará da libertação do interno. “ (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.70)

Uma filha solteira grávida, um filho homossexual, um herdeiro com intenções de pobreza ou humildade, uma filha que não aceita o convento e tem desejos carnais, todos eram alvos para o rótulo da loucura e para a internação. “No século XVII, a consciência da loucura e a consciência do desatino não existiam separadamente. Só um século mais tarde é que a loucura vai ser isolada e dotada de feição própria.” (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.72)

Um pouco mais evoluído o conceito, diferenciando melhor elementos patológicos de pensamentos divergentes, a loucura passa a ser um elemento que vitimiza as famílias que tem um ente louco, dessa forma, a melhor forma de justiça é a internação. “Assim, no interior das casas de força, a loucura representa o papel de uma injustiça. Ela é uma injustiça para os outros.” (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.77)

 É com o passar do tempo que surgem formas de vivenciar o tratamento da loucura com o conhecimento do interior psicológico do ser humano, avaliado pela moral de cada época, mas transformando a forma social de lidar com o divergente. Assim, o louco passa a ser aquele que incapaz de agir de forma diferente, quase que inocentemente, por não racionalizar, é um perigo a si e aos outros:

“o louco é aquele que por sua irresponsabilidade inocente (o que o distingue docriminoso, a grosso modo) abole a liberdade, comprometendo a razão. Isto significa que o confinamento dos loucos representa em termos jurídicos o desaparecimento da liberdade já efetuado pela loucura no plano psicológico. Ou seja, o internamento é compatível com a natureza mesma da loucura: sendo a essência da loucura a ausência da liberdade, a restrição material dos loucos torna-se uma prescrição natural”. (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.82)

Além de um espaço de recolhimento daqueles que não são agradáveis de convívio, as internações passam a ser também um espaço de justiça, em que  “o asilo se revela um espaço social onde o doente sofre um processo de acusação, julgamento e condenação. (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.87). Essa prática, ao longo da história, será comum, até que a medicina se aproprie da loucura de forma completa, não por curá-la, mas por dominá-la.

A loucura teve e tem um espaço maior na medicina do que na psicanálise, até mesmo, porque essa última tem preocupação maior com o conforto e o bem estar do indivíduo e não necessariamente no lucro com medicamentos ou internações:

“Ainda que ao situar a Psicanálise no século XIX, Foucault afirme ter ela permanecido estranha ao “trabalho soberano do desatino”, há que se levar em conta as conseqüências radicais das descobertas freudianas: a inseparabilidade do racional e do emocional, da inteligência e das paixões, dos pensamentos e dos desejos, do permitido e do proibido, do visível e do invisível, do real e do imaginário, em suma, do sujeito e do mundo. A significação psicanalítica da loucura não passa pela dicotomia normal/anormal, pois a angústia, a dor, os desejos e as fantasias são constitutivos da vida psíquica de todos os indivíduos. (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.90)

Essa normalidade para com os aspectos “loucos” do ser humano e a responsabilização de quem tem direitos sobre a psicologia humana era uma das preocupações Freudianas. “Era de esperar-se desde o início que, quaisquer que fossem as regiões em que a psicanálise penetrasse, ela teria inevitavelmente de enfrentar as mesmas lutas com os donos do campo.” (FREUD, 2018 p. 22) Esse enfrentamento, mesmo que diante da loucura, ainda hoje, gera campos e margens de discussões.

O que é normal, ou de senso comum, servirá para balizar os aspectos do anormal. E ainda sobre esse elemento, podemos dizer que o senso comum, ao longo da história, nem sempre se mostrou tão racional.

“Por meio da loucura, o homem torna-se para si mesmo uma verdade positiva, isto é, uma realidade passível de observação científica. Entre o homem (sujeito) e o homem (objeto) existe a mediação do homem-louco, isto é, uma ciência do homem tornou-se possível graças à loucura. Como objeto de conhecimento, a loucura só é apreensível por aquele que detém uma “consciência de não-loucura”, isto é, pelo sujeito do conhecimento. (FRAYZE-PEREIRA, 1984 p.93)

Com esse aspecto em mente, passamos a nos questionar o quanto evoluímos neste conceito, principalmente em tempos de pós-verdade, e fakenews. Quem são os sujeitos do conhecimento?  Quando pensamos que a loucura pode e foi um elemento de invalidação dos argumentos de tantos indivíduos ao longo do tempo, sabemos que ainda há muito para desbravar neste campo, e que a psiquiatria o tem feito cada vez com melhores atributos com os avanços da neurociência. Contudo, o campo do verdadeiro, da realidade, ainda entra em choque e este argumento, o do louco, ainda é bastante válido para invalidar relações de poder na esfera social.

Nesse ambiente, dominados pela repressão à loucura e à vergonha, passamos a sermos censores sociais nas interações que realizamos digitalmente e presencialmente. Os haters, denominação dada àqueles que interagem na rede social com o objetivo de diminuir os outros ou de gerar polêmica, são um bom exemplo de falta de empatia e da noção que Frayze-Pereira (1984) apresenta do histórico de sanidade da nossa sociedade. Para ele, como já citamos anteriormente, mas repetimos pela importância da afirmação:

 “diante do inumano a sociedade clássica sente vergonha (…) a honra das famílias e da religião deve ser preservada. Os perigos do mau exemplo devem ser suprimidos. Há o temor de que, se tornadas públicas, as formas do desatino contaminem a sociedade. (…) E será apenas quando a honra já não puder ser afetada, quando o perigo do escândalo tiver sido afastado, que se cogitará da libertação do interno.“ (Frayze-Pereira, 1984)

Nessa necessidade de construir censura ao que é diferente, estabelecem-se relações de poder, nem sempre validadas, mas uma tentativa de relação. Eu primeiro exponho o outro para livrar a mim mesmo da exposição. Esse aspecto da relação extremamente enraizado em nossa sociedade, conforme nos aponta Chaui (2001):

“(…) micropoderes capitalizam o autoritarismo em toda a sociedade: na família, na escola, nas relações amorosas, no trabalho, na mass midia, no comportamento social nas ruas, no tratamento dado aos cidadãos pela burocracia estatal, no desprezo do mercado pelos direitos do consumidor, na naturalidade da violência policial”(Chaui, 2001)

Essa marcação de poder realizada pelos comentários de censura, negativos e direcionados a pequenos grupos demonstra que os aspectos previstos pelos autores que defendiam uma globalização positiva não se estabeleceram, e que é urgente um posicionamento da sociedade em relação às técnicas comunicacionais. Lima (2006) nos trazia que as características do “mundo globalizado” seriam exatamente a “descentralização da identidade cultural e o surgimento de identidades múltiplas, isto é, abertas, contraditórias, inacabadas e fragmentadas.” (LIMA, 2006). Contudo, e ao mesmo tempo, vivenciamos uma tentativa de pasteurização de ideias, de identidade, de religião, de cor, de gênero que polariza a sociedade que ainda busca estabelecer o que é loucura e o que é normal.

De tempos em tempos, confundimos a tecnologia utilizada na comunicação, com a própria comunicação. MARTIN-BARBERO (2009), relembra a adoção da teoria funcionalista como modelo comunicativo, em que o conceito de comunicação era estritamente mecânico, comparando-a à transmissão. Esse aspecto da tecnologia a sociedade midiatizada demonstra já ter domínio, nos falta a manifestação da prática intelectual da comunicação no processo de midiatização.

Em face de que “numa sociedade que tem horror ao diferente, que reprime a diversidade do real à uniformidade da ordem racional científica, (…) a loucura é uma ameaça sempre presente” (Frayze-Pereira, 1984), surgem indivíduos repressores, que utilizam-se do aparato instalado para gritar suas semelhanças ignorando aspectos empáticos e a diversidade de opiniões, direcionando sua argumentação superficial para o campo da polarização e ganham adeptos por dominarem os aspectos da forma.

Uma amostra dessa interação é apresentada na série de documentários “Eu e o Universo” (2018), produzida pelo Netflix, em que no primeiro episódio o assunto central são as mídias sociais. Nesse vídeo é apresentado, em formato de brincadeira infantil, um teste bastante interessante. É gravado um um trecho com uma “aspirante a cantora”, que desafina propositadamente. Em seguida, o mesmo é apresentado a dois grupos de 4 crianças. Um grupo é informado de que após os comentários feitos na rede social, eles seriam apresentados à cantora, o outro grupo foi informado que não teriam contato algum com a mesma. Na conclusão do experimento o grupo que sabia que teria contato posterior teve comentários menos negativos e nenhum comentário ofensivo, já no segundo grupo os comentários foram maldosos e com objetivo de atacar. Em um segundo momento da experiencia, os dois grupos são convidados a conhecer a cantora e ler seus comentários para ela. Alguns membros do segundo grupo não leram os comentários na íntegra ou mudaram palavras na intenção de não a magoar.

Esse pequeno experimento do documentário nos mostra o quão sensores do certo errado tentamos ser, e também a quantidade enorme de ruídos sociais que geramos. É difícil imaginar um espaço em que a loucura e a censura sejam apenas tratadas para elementos de distorção neural da realidade. O louco, o incapaz, aquele que não compreende e não se adapta a matriz precisa de elementos diferentes de cuidados e não meramente de rótulos.

Achor (2012) nos mostra que “a ‘cegueira não intencional’, nossa incapacidade frequente de ver o que muitas vezes está bem debaixo do nosso nariz se não estivermos focados diretamente nele”, está diretamente relacionado com nosso enfoque nas nossas interações. O que demonstra que avaliamos o outro sempre a partir das nossas percepções, principalmente se não concordamos com ele. A loucura foi ao longo dos anos uma das maiores cegueiras não intencionals, e por diversas vezes intencional.

Precisamos começar a discutir novos limites para a liberdade de expressão do julgamento alheio? Precisamos de uma campanha de conscientização da liberdade do sentir e do agir? Podemos ter evoluído quanto aos asilos e as formas de repressão ao louco, mas estamos criando novas formas de claustro psicológico com nossos novos aparatos tecnológicos e nossas novas formas de interagir.

Estimasse que a ansiedade e a depressão sejam as doenças mais frequentes do século XXI, e que bom que evoluímos com sentido ao que deve ser isolado da sociedade, de outra forma estes indivíduos estariam perdidos. Se a loucura ainda fosse apenas o que foge ao senso comum ou a normalidade, os asilos estariam mais do que superlotados. Deixemos o rótulo de louco de lado, permitamos que a loucura vá e venha em nossas mentes inspiradas e que nossos surtos sejam artísticos. Até porque para aquilo que realmente precisa de tratamento extremo a psiquiatria e a neurociência já estão realizando seu trabalho. Que a psicologia e a psicanálise possam ajudar cada vez mais o ser humano a encontrar seu conforto psicológico e a se livrar dos estigmas da normalidade.

Referências bibliográficas

ACHOR, Shawn.O jeito Harvard de ser feliz : o curso mais concorrido de uma das melhores universidades do mundo. São Paulo: Saraiva, 2012.

BRAGA, José Luiz. Circuitos versus campos sociais. Paper (texto a ser publicado no Livro Mediações e Midiatização – Compós). PPGCOM Unisinos: São Leopoldo, 2012.

CHAUI, Marilena de Souza. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

EU E O UNIVERSO, temporada 1, episódio 1. Criação Adam Davis, Jerry Kolber. Série original Netflix. S.l.: Media Rights Capital; Netflix, 2018. 23 min, son., col. Série exibida pela Netflix. Acesso em: 01 fev jul. 2018.

FRAYZE-PEREIRA, João A. O que é a loucura. São Paulo: Brasiliense, 1984.

FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. Associação Brasileira de Filosofia e Psicanálise. Volume XIV. Disponível em: < http://psicanalise.org.br/cursos/course/view.php?id=2> Acesso realizado em: 10/11/2018.

LIMA, 2006. Comunicação, poder e cidadania. In: Rastros – Revista do Núcleo de Estudos de Comunicação. Ano VII, 2006.

MARTÍN-BARBERO, Jesus. As formas mestiças da mídia. In: Pesquisa FAPESP, n.163, Setembro de 2009. Pp. 10-15.