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História de Música

História #2 – Voltando para casa.

O sol entrava pela fresta da janela. Carlos abriu os olhos lentamente, como se a claridade incomodasse. Acordava de um sonho turbulento. Parecia que o trânsito estava parado no centro da cidade e por isso o táxi havia se atrasado. Em consequência disso, o carro o buscara mais tarde do que o combinado, e ainda por cima, chegara no aeroporto com 30 minutos de atraso. Ele correu até o balcão de check-in, tentou argumentar. Havia perdido o voo. A moça disse que não tinha mais o que ele pudesse fazer. Nisso ele decidiu sentar, desolado, no banco de plástico do aeroporto. Ao lado dele umas senhoras falavam em uma língua estranha, confusa, tão confusa quanto os primeiros dias ali. Em sua frente um monge pedia esmolas, uma mulher tocava violão e cantava “Sabão cracrá, sabão cracrá”. Foi nessa hora que Carlos abriu os olhos, incomodou-se com a claridade da janela.

No celular, oito horas, ainda tinha tempo até o táxi chegar. Respirou aliviado. Marcara o táxi com antecedência de 2 horas. Havia decidido que preferiria esperar no aeroporto, na noite anterior ele chegara de Maracas e pegaria o voo do meio dia, de Salvador para Porto Alegre, depois ainda teria uma longa jornada de ônibus de Porto Alegre a Uruguaiana. Ele não queria que nada desse errado.

Fazia 4 anos que estava no interior da Bahia, há dois não via os pais, e a noiva Paula, há um mês e meio, quando ela foi passar o último feriadão em sua companhia. Carlos planejava ir embora há dois anos, mas não tinha coragem de pedir demissão. Havia feito a promessa de prosperar para Paula e não gostaria de desistir no meio do caminho. Só que nos últimos meses as ligações para Paula eram mais melancólicas e ela pedia que ele viesse embora, que tudo daria certo. A melancolia era em função da crise que a empresa de Carlos passava, com a redução quase total dos incentivos do governo era inevitável que isso acontecesse.

Carlos acreditava que era esse o momento de devolver para empresa em dedicação a oportunidade que acreditava ter tido. Mas quatro dias atrás recebeu a notícia de que estava no plano de cortes da empresa. O chefe de Carlos, conseguiu ainda articular no desligamento o traslado para Salvador e o Voo para Porto Alegre.

O Táxi chegou. Carlos tinha mantido as malas prontas. Tinha acabado de se vestir após o banho quando a recepção do hotel avisou que o táxi havia estacionado para esperá-lo.

– Pode descer no seu tempo Sr. Carlos, o motorista está de bom humor, disse que o caminho até São Cristóvão está livre, portanto o senhor vai chegar bem a tempo no aeroporto.

– Obrigado Ulisses.

Carlos, desde a sua chegada naquele hotel, tinha achado fantástico o tratamento e a cortesia dos funcionários. Desligou o telefone. Pegou as malas e foi para o corredor chamar o elevador. Desceu. Entrou no táxi. Pensou “Ar-condicionado, como eu pedi. Obrigado Ulisses”.

– Direto para o Aeroporto Seu Carlos? Perguntou o taxista cortês.

– Sim. O seu nome é? (Carlos sempre perguntava o nome de todo mundo, mesmo que não fosse os ver nunca mais)

– Osvaldo, mas o povo daqui me chama de Vado. Fica à vontade para me chamar como quiser. Se quiser parar em algum lugar só me avisar.

– Não será preciso Sr. Osvaldo. Vamos direto para o aeroporto.

Chegaram até bastante rápido ao aeroporto. O trânsito estava realmente livre. Carlos agradeceu a corrida, fez o pagamento, e dirigiu-se ao balcão de check-in. Uma pequena fila o separava da atendente.

Aguardou uns 3 minutos o atendimento. Entregou o bilhete impresso da internet. Despachou as malas, e ainda tinha cerca de uma hora e trinta minutos até o começo do embarque. Ficou por ali, lendo um livro que já estava na sua cabeceira fazia um ano, mas sempre estava cansado demais para lê-lo.

Enquanto passava os olhos, só pensava nos quatro anos, em Paula, nos pais. Pensava que não havia contado todas as suas inquietações a Paula, que não havia dito o quanto se sentia sozinho nesse tempo longe. Foi programando o que faria na volta para casa e como estariam as coisas.

Embarcou pontualmente. As horas do voo passavam amargas e demoradas. Já programava a ida até a rodoviária, a compra do bilhete para Uruguaiana, se lancharia antes, se o faria depois da compra do bilhete.

O voo chegou no horário. Esperou a bagagem na esteira e tudo corria perfeitamente. Pegou um carrinho de bagagem para ajudá-lo no transporte até o traslado. Foi até o segurança que ficava na porta e perguntou:

– Como faço para ir até a rodoviária?

– O Sr. Pode pegar o transporte até o trem aqui no aeroporto, e de lá ir até a estação da rodoviária. O senhor tem o seu bilhete?

O Segurança iria conferir a bagagem. Carlos alcançou para ele, e quando levantou a cabeça, olhou para o saguão do aeroporto. A porta que separava do saguão estava aberta. Olhou longe e viu um rosto familiar. Era Paula, depois viu a Mãe, o Pai, e a Irmã Sabrina. Pensou “Ual, como a maninha cresceu em dois anos, e Paula, você tá linda”. Os olhos marejados. Conforme foi saindo prestou um pouco mais de atenção e viu que seguravam um cartaz:

“Carlos Bragança! Não aguentamos a saudade e viemos te buscar!”

Em seguida a irmã trocou o cartaz:

“Vamos logo, ou os convidados cansam de esperar para a festa de boas-vindas”.

Ele apertou firme a alça da mala, caminhou mais rápido e abraçou os quatro. Ele já estava em casa e nunca mais sozinho.

Depois de Ler, ouça a música;